• Maconha faz mal?

    Saiba mais sobre a fundamentação científica acerca dos efeitos da maconha sobre o organismo.

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O modelo Minnesota

O MODELO MINNESOTA

Comunidade Terapêutica

Eliana Freire *

Vou falar sobre o Modelo Minnesota para o tratamento de dependentes de substâncias psicotrópicas, que é uma tentativa de integrar várias técnicas psicológicas com a proposta dos doze passos do A. A (Alcoólicos Anônimos, 1978). Trata-se de um modelo multidisciplinar, que utiliza profissionais de diversas áreas bem como "conselheiros leigos", e visa, sobretudo, a integração dessas diferentes abordagens num clima de humildade, pois é complicado trabalhar com profissionais de áreas diferentes.
O processo, baseado no conceito de dependência química como um fenômeno bio-psico-sócio-espiritual, é ancorado numa dinâmica essencialmente grupal na qual os residentes (clientes ou pacientes) compartilham entre si suas histórias e dificuldades, aprendendo a identificar suas emoções, valores e atitudes antes distorcidos pela droga.

A partir daí, aprendem um novo estilo de vida, livre das drogas. O essencial aqui é que, num clima amoroso, de aceitação mútua, descobrem que não estão sozinhos, que outros já passaram por sofrimentos semelhantes e hoje estão vivendo a vida de forma integral, com todas as suas dificuldades inerentes, sem drogas. Basicamente, de uma forma sucinta, esse seria o Modelo Minnesota que tanto pode ser adaptado a ambulatórios como a sistemas de internação (Burns, 1992,1995 e 1998; Anderson,198 1; Heilman, 1 980; Kurtz,1979; Spicer,1993).


Este é um dos modelos entre vários que se pode falar, ilustrando a questão da espiritualidade e o encontro com a psicologia. Eu, pessoalmente pude conhecê-lo em 1985, pois tive problemas com álcool e realizei o processo do Modelo Minnesota como cliente, e mudou totalmente a minha vida. Nesta época esse método tinha acabado de chegar dos Estados Unidos no Brasil e ainda estava sendo adaptado. O que ali experienciei, em muitos aspectos, fugia de tudo que havia aprendido academicamente na minha formação em psicologia. Tive a sorte de participar quando ele ainda estava com três anos de vida no Rio de Janeiro. É interessante, pois tende a existir uma garra e uma grande paixão nas pessoas que trabalham com propostas novas e pude usufruir desta atmosfera de uma forma intensa e positiva, com resultados que reverberam no meu cotidiano até hoje. Depois, as coisas tendem a se institucionalizar, e fica difícil manter aquela chama que se vê nas tentativas iniciais de tratamentos novos. O próprio John Burns (1998) que trouxe o Modelo Minnesota para o Brasil em 1982 percebeu que "esse modelo, já naquela época, estava literalizado e forjado num molde administrativo e terapêutico para satisfazer às companhias de seguro" (p. 12). Sorte minha que isso ainda não havia acontecido no Brasil. Ele e suas equipes se preocupam até hoje com atualizações, adaptações, estudos e questionamentos (Burns, 1998).


Considero a história do Modelo Minnesota uma história que nos ensina, ilustra, a atualização (no sentido de transformar em ação) do que estou chamando de espiritualidade no sentido mais horizontal, transformando os saberes (de origens diferentes, tanto acadêmicos como leigos) em ajuda àquele que sofre, num clima de humildade, solidariedade e compartilhamento. Na década de 50, pós Lei Seca e pós Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos, existia um índice de alcoolismo muito grande e o modelo de saúde tradicional (psiquiatria e/ou psicanálise) não estava sendo eficaz. Realizavam muitas tentativas de internação, tratamentos e desintoxicação, mas a pessoa saía, recaía e voltava. Era aquele moto contínuo que todos conhecem, com os médicos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfim, uma enorme equipe tentando ajudar sem obter êxito. Paralelamente, em Minnesota, um estado dos Estados Unidos, havia um pequeno grupo de alcoólatras em recuperação, que já estava em abstinência e freqüentava o A.A. Todos eles se conheciam e conheciam os médicos que
[1] lá estavam, desesperançados. Os profissionais de saúde então, começaram a abrir a mente para aprender com esses "leigos" (da medicina, mas certamente não do alcoolismo e nem da recuperação), como era essa história de ser dependente e como conseguir parar, pois no hospital as pessoas não conseguiam. Elas paravam apenas enquanto estavam internadas, quando saíam bebiam outra vez.

Nas reuniões de A.A. que, primeiramente pareciam esquisitas, diferentes e em bases duvidosas e estranhas àqueles profissionais, eles abriam a mente para conhecer as pessoas e entender esse processo. No começo, aquela linguagem era muito estranha (primeiro passo, impotência perante o álcool, poder superior, "só por hoje", etc.). A "ciência" ficou meio abalada, mas ao mesmo tempo curiosa, pois estavam vendo, inegavelmente, que aquela proposta estava funcionando (Darrah,1992; Robertson,1988).
Foram chamados alguns alcoólatras em recuperação, que já estavam em abstinência há mais tempo para o Willmar State Hospital em Minnesota, onde 80% dos pacientes tinham diagnóstico de alcoolismo. Este hospital foi o pioneiro no desenvolvimento do que veio a ser chamado "Modelo Minnesota". A equipe de profissionais começou a aprender com eles (alcoólatras em recuperação) como era esse processo de parar de usar a substância e ao mesmo tempo ficar tranqüilo e curtir a vida com todas as suas dificuldades naturais. A maioria estava bem, interagindo com as pessoas, readaptada à vida, à sociedade. Não era aquela história de parar e ficar de mau humor ("porre seco"), mas sim, de mudar de estilo de vida.

A equipe se propõe a aprender com eles, e mais ainda, há um treinamento em que os alcoólatras em recuperação aprendem algumas técnicas com os profissionais também (há uma troca), e se tornam "conselheiros em dependência química" – isso não existia ainda. Surge uma mini comunidade terapêutica, um ambiente em que tudo objetivava facilitar a conscientização daquele dependente químico e da sua situação, da sua história de vida, facilitando a aceitação dessa disfunção, que seria crônica, primária e progressiva. Também identificam a importância da aceitação da idéia da abstinência e da reformulação de estilo de vida resultando na possibilidade de curtir o "barato" da vida sem drogas. Eram propostas diversas atividades, consultas individuais, terapia de grupo, diversas dinâmicas e palestras. Com o tempo as equipes chegaram à conclusão de que o elemento mais forte dessa abordagem eram exatamente os grupos informais de dependentes químicos. Os internos (residentes, pacientes ou clientes) se juntavam, falavam de suas histórias e trocavam com os mais velhos (antigos, i.e., mais tempo abstinentes), descobrindo maneiras de permanecerem "limpos". Como disse Spicer (1993), "a verdadeira terapia acontecia quando a equipe de terapia ia para casa" (p.42).


A grande novidade era a humildade para aceitar que, se por um lado existia uma limitação crônica, por outro havia a possibilidade da conquista de uma nova liberdade. Paradoxalmente, aceitar a limitação também abre para outras dimensões. Como já assinalava Gregory Bateson (1971) aqui o mito do autocontrole, da auto-suficiência da cultura hedonista e individualista é questionado. Nessa nova proposta, a pessoa se capacita a desenvolver todas as áreas da sua vida que estavam aprisionadas, por conta da perda de controle com as drogas, através de trocas solidárias, de ajuda mútua.

Gostaria de salientar que esta aprendizagem exige humildade, mente aberta de todos, tanto do profissional, como dos alcoólatras em recuperação (que eram conselheiros) e dos clientes. Havia um clima de camaradagem, do uso de primeiro nome, uma aproximação muito grande entre todos, um clima de família. Esse clima era altamente terapêutico. Então, basicamente, o que ocorria era uma aprendizagem por conta da experiência. Até existiam palestras sobre alcoolismo, mas na verdade, o resultado se dava devido aos relacionamentos no cotidiano, através dos exemplos, não das teorias.


Se um agia de determinada forma, o outro dizia: "você não acha que está meio nervoso?" Aí, ele olhava para um que estava lá há mais tempo, "zen", tranqüilo e observava, pois queria ficar daquele jeito. Ou seja, isso vem de uma sabedoria milenar. Aprendemos pela vivência, com o exemplo dos outros, que na verdade é o trabalho que os grupos do A.A. e N.A. fazem. Houve esse encontro de vários saberes, que


logicamente, com o tempo começou a ser mais complexo, por exemplo, o modelo se estendeu para a dependência de outras substâncias psicoativas além do álcool, incluindo as ilegais c legais (como os fármacos), além da inclusão de comorbidades (Laundergan, 1982; Kinney e Leaton,1983; Smith e Wesson, 1985). Alguns casos de dependência química precisavam de medicação, principalmente durante a síndrome de abstinência. Eram usados todos os serviços (médicos, psicólogos, assistentes sociais, conselheiros, enfermeiros, etc.), mas o mais interessante é que todos (incluindo cozinheiros, pessoal da limpeza e administração) que trabalhavam nessas mini-comunidades acreditavam nesse estilo de vida altamente espiritualizado. Não a espiritualidade estando lá e eu aqui, mas sim, ela sendo vivida no cotidiano, na troca.

Se a patologia é fundada na relação disfuncional do indivíduo com a droga, a recuperação é aprender a se relacionar com o outro de uma forma amorosa, ela se dá na relação, é por isso que o grupo é importante. As pessoas se identificam e vêem que um não é tão diferente do outro. A culpa, a vergonha, o sentimento de excepcionalidade que existia antes, vai se reduzindo, pois são todos dependentes químicos, e muitos já parados há algum tempo. Todos são agradecidos aos que dividem suas histórias e que dão o exemplo de si mesmos. Como diz Hillman (1967):


Um novo sentimento de perdoar-se e aceitar-se começa a espalhar e circular. É como se o coração...estivesse aumentando sua influência. Aspectos sombrios da personalidade continuam com seu peso negativo, mas agora dentro de um contexto de uma "est6ria" mais ampla, o mito de si mesmo, e o começo de um sentimento de que eu sou como eu devo ser. Meu mito transforma-se em minha verdade; minha vida torna-se simbólica e alegórica. Perdoar-se, aceitar-se, amar-se e mais, perceber-se como pecador, mas sem culpa; agradecido por seus pecados e não pelos pecados dos outros, amando seu destino até o ponto de sempre estar desejando ser como é e manter esse relacionamento consigo mesmo. (p.119).


Eu acrescentaria "e com os outros".

Creio que este modelo, acima de tudo, respeita a visão holística do ser humano como ser bio-psico-sócio-espiritual, enfatizando o sócio-espiritual tão esquecido em nossa sociedade individualista e materialista. Para terminar, independentemente da abordagem terapêutica adotada, creio que qualquer psicólogo concordaria com as metas contidas na sábia "Oração da Serenidade" proferida pelos grupos anônimos (A.A., N.A., Al-Anon, Nar-anon) em suas reuniões:

Concedei-nos Senhor a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras. ('Mascarenhas 1990, p.147)

Referências Bibliográficas 
Alcoólicos Anônimos. A história de como muitos milhares de homens e Mulheres se recuperaram do alcoolismo, Centro de Distribuição de literatura de A.A. para o Brasil, 1978. 
ANDERSON, D.J. Perspectives on Treatment: The Minnesota Experience, Hazelden Foundation, 1981. BATESON, G. The Cybernetics of Self: A Theory of Alcoholism. Psychiatry, 34 (1), pp. 1-18, 1971 BURNS, J. General Systems Theory and the Treatment of Chemical Dependency, University Microfilm , Inc., University of Michigan, 1992. 
O Caminho dos Doze Passos, Eds. Loyola, 1995. 
O Modelo Minnesota no Brasil, apostila, 1998. 
DARRAH, M.C. Sister Ignatia – Angel of Alcoholics Anonymous, Loyola University Press, 1992. HEILMAN, R. O. Dynamics of Drug Dependency, Hazelden Foundation, 1980. 
HILLMAN, J. Insearch – Psychology and Religion, Spring Publications, 1967. 
KINNEY, J. E LEATON, G. Loosening the Grip: a Handbook of Alcohol Information, St. Louis: The C.V. Mosby Company, 1983. 
KURTZ, E. Not God: A History of Alcoholics Anonymous, Hazelden Foundation, 1979. LAUNDERGAN, J.C. Easy Does It: Alcoholism Treatment Outcomes, Hazelden and the Minnesota Model, Hazelden Foundation, 19$2. 
MASCARENHAS, E. Alcoolismo, Drogas e Grupos Anônimos de Mútua Ajuda, S.P.: Siciliano, 1990. ROBERTSON, N. Getting Better — Inside Alcoholics Anonymous, Morrow, 1988. SMITH, D.E. e WESSON, M.D. Treating the Cocaine Abuser, Hazelden Foundation, 1985. 
SPICER, J. The Minnesota Model, Hazelden Educational Materials, 1993.

*Prof'. do Departamento de Psicologia, PUC-Rio, Ma., University of Houston. 

Mais 24 Hrs de Paz e Serenidade


A presença das bebidas alcoólicas e outras substâncias psicoativas na cultura brasileira

A presença das bebidas alcoólicas e outras substâncias psicoativas na cultura brasileira

Tarcisio Matos de Andrade
Carlos Geraldo D'Andrea (Gey) Espinheira
 

A história do álcool

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, no início da colonização, descobriram o costume indígena de produzir e beber uma bebida forte, fermentada a partir da mandioca, denominada cauim. Ela era utilizada em rituais, em festas, portanto, dentro de uma pauta cultural bem definida. Os índios usavam também o tabaco, que era desconhecido dos portugueses e de outros europeus.
No entanto, os portugueses conheciam o vinho e a cerveja e, logo mais, aprenderiam a fazer a cachaça, coisa que não foi difícil, pois para fazer o açúcar a partir da cana-de-açúcar, no processo de fabricação do mosto (caldo em processo de fermentação), acabaram descobrindo um melaço que colocavam no cocho para animais e escravos, denominado de "Cagaça", que depois veio a ser cachaça, destilada em alambique de barro e, muito mais tarde, de cobre.
A cachaça é conhecida de muito tempo, desde os primeiros momentos em que se começava a fazer do Brasil, o Brasil. O açúcar, para adoçar a boca dos europeus, como disse o antropólogo Darcy Ribeiro, da amargura da escravidão; a cachaça para alterar a consciência, para calar as dores do corpo e da alma, para açoitar espíritos em festas, para atiçar coragem em covardes e para aplacar traições e ilusões. Para tudo, na alegria e na tristeza, o brasileiro justifica o uso do álcool, da branquinha à amarelinha, do escuro ao claro do vinho, sempre com diminutivos.
 

Qual é o lugar do álcool e das outras drogas em nossa cultura?


"Parece improvável que a humanidade em geral seja algum dia capaz de dispensar os ‘paraísos artificiais’, isto é, .... a busca de auto transcendência através das drogas ou... umas férias químicas de si mesmo... A maioria dos homens e mulheres levam vidas tão dolorosas - ou tão monótonas, pobres e limitadas, que a tentação de transcender a si mesmo, ainda que por alguns momentos, é e sempre foi um dos principais apetites da alma."
(Aldous Huxley, escritor inglês)

"Porque os homens são mortais e não podem se habituar a essa idéia, o néctar e a ambrosia são fantasmas encontrados em todas as civilizações. Plantas mágicas, bebidas divinas, alimentos celestiais que conferem imortalidade, as invenções são múltiplas e todas, na falta de sucessos práticos, expressam e traem o terror diante da inevitável necessidade."
(Michel Onfray, filósofo francês)

Não depende sempre da vontade o desejo de beber, pelo menos em muitos casos. Antes, é uma imposição; um estranho e imperioso chamado como a suavidade do canto de sereia que encanta, enfeitiça e enlouquece. Mas, nada é tão simples assim, a bebida está bem entranhada na cultura brasileira. O hábito de beber faz parte da nossa maneira de ser social.
 
Sendo assim:
Cada povo, cada grupo social, cada pessoa tem a sua condição de responder a determinados estímulos produzidos em seu meio, ou externos a ele. Em outros termos, podemos dizer que temos uma pauta cultural em que as coisas são normalmente dispostas. Por exemplo, o licor na festa de São João, o vinho no Natal, a cerveja no carnaval e assim por diante, não que sejam exclusivas, mas as mais representativas de cada uma dessas festas.

A cachaça é a bebida mais íntima da população, porque é de baixo custo, na maioria dos casos, e com pouco dinheiro pode-se beber o suficiente para perturbar-se e perturbar a todos os que estiverem à volta. É a forma social e individual de beber que está em jogo, quando se fala em consumo de álcool, já que há uma larga disposição social para consumi-lo na formas das mais diversas bebidas - destiladas ou fermentadas, fortes ou fracas.
 

É preciso ver o álcool no conjunto da vida social e não só na das pessoas, e sobretudo, não só em si mesmo, como muita gente o faz, ou seja, considera o álcool um agente autônomo e o culpa por suas conseqüências, como se fosse um ser animado que agisse por conta própria.
No sentido oposto, é preciso ver a disposição social para o consumo de drogas e se perguntar: 

por que as pessoas procuram as drogas? Por que as pessoas bebem? E, também perguntar: se usam drogas, e dentre elas o álcool, por que as consomem desta ou daquela maneira? Moderada ou abusivamente?

Por que será que sob o efeito da mesma quantidade de álcool, algumas pessoas ficam alegres, outras ficam agressivas ou mesmo violentas? Por que será que um derivado opióide como a meperidina, por exemplo, para algumas pessoas é apenas um analgésico potente e para outras, além desse efeito, é uma fonte de prazer a ser buscada de forma repetida? 

E ainda: por que uma mesma pessoa sente de maneira diferente os efeitos de uma mesma droga, em diferentes circunstâncias e contextos? Por que uma droga alucinógena, quando utilizada no contexto de um ritual religioso, tem muito menos efeito perturbador da consciência do que quando usada com outros propósitos?
 
O que se pode concluir daí, e que tem sido apontado por estudiosos do assunto, é que os efeitos de uma droga dependem de três elementos: suas propriedades farmacológicas (excitantes, depressoras ou perturbadoras); a personalidade da pessoa que a usa, suas condições físicas e psíquicas, inclusive suas expectativas; o conjunto de fatores ligados ao contexto de uso dessa droga, tais como as companhias, o lugar de uso e o que representa esse uso socialmente.
 

Embriaguez e o Alcoolismo


Quando uma pessoa perde o controle sobre a ação de beber ela se torna objeto da bebida, que perturba a consciência para além do domínio que a pessoa tem de si mesma. Eis a embriaguez em sua forma mais simples, uma leitura sem preconceitos, mas ao mesmo tempo carregada com tintas muito fortes, porque nem todos os que bebem são dominados pela bebida, embora não se deva esquecer o quanto as bebidas acendem as paixões.
Entretanto, quando o álcool não é utilizado para aumentar a espirituosidade, mas para
incentivar, encorajar ou consolar amargura, ele se torna um poderoso fator de desorganização do sujeito como ser social, isto é, para além de si como indivíduo e de suas relações com os outros, com os íntimos e com os de cerimônia. Quando advém a embriaguez e, com a freqüência do uso, o alcoolismo, toda a magia da bebida é substituída pela perversidade da forma como ela é consumida.
 
VOCÊ SABIA?
Uma das formas eficazes empregadas para a desorganização de determinados povos
indígenas foi a introdução da aguardente.

Alcoólatra e Alcoolista

É muito importante recordar que normalmente as pessoas se tornam conhecidas pelo que
fazem, ou seja, pela profissão que exercem. Se você trabalha, é um trabalhador ou uma
trabalhadora; se você só estuda, é um estudante ou uma estudante e assim por diante. Uma
pessoa que bebe com alguma freqüência é um bebedor ou uma bebedora, mas sabemos que estes termos não são muito freqüentes, e em seu lugar vem a denominação de bêbado ou bêbada.

Alcoólatra

O termo alcoólatra confere uma identidade e impõe um estigma, que anula todas as outras
identidades do sujeito, tornando-o tão somente aquilo que ele faz e que é socialmente
condenado, não pelo que faz, mas pelo modo como o faz. Em outros termos, não é a bebida
em si, mas aquela pessoa que bebe mal, isto é, de modo abusivo, desregrado, que a leva à
condição de ser socialmente identificada popularmente como "alcoólatra", ou seja, quem
"idolatra", "adora" e se tornou dependente do álcool.
 
Alcoolista

Este termo foi proposto por alguns pesquisadores como uma alternativa menos carregada de valoração, isto é, de estigma. Segundo eles, isto não reduziria a pessoa a uma condição, como a de alcoólatra, mas o identificaria como uma pessoa que tem como característica uma afinidade com alguma coisa, com alguma idéia.
Por exemplo, uma pessoa que torce no futebol pelo Flamengo é flamenguista; se estiver
inscrito no partido PFL é, pefelista, e assim por diante. É uma característica, mas não reduz o indivíduo a ela, como uma identidade única e dominante. Eis porque seria preferível designar uma pessoa como alcoolista e saber que ele é, ao mesmo tempo, muitas outras coisas, inclusive alguém que pode deixar de ser dependente de álcool. Isto ajudaria esta pessoa a não ser estigmatizada, reduzida a uma única condição.
Apesar desta argumentação, em português, os termos "alcoólatra" e "alcoolista" continuam a serem usados, quase que indistintamente, por diferentes autores, mas sempre equivalendo a "dependente de álcool". Esta seria a expressão mais adequada cientificamente. O termo "alcoólico" não é muito adequado, pois na língua portuguesa significa "o que contém álcool", mas muitas vezes é empregado devido à semelhança com a palavra inglesa "alcoholic", que além deste mesmo significado é também usada para referir-se a quem é dependente de álcool.
 
Outras drogas
 
Maconha

O uso de maconha, com propósitos medicinais, data de 2.700 a.C. Largamente utilizada na
Europa com este propósito, durante os séculos XVIII e XIX, ela foi introduzida no Brasil pelos
escravos africanos e foi difundida também entre os indígenas, sendo no início usada com
propósitos medicinais e nas atividades recreativas como a pesca e nas rodas de conversa, nos finais de tarde. Nos Estados Unidos, ela já era conhecida pelos índios quando os mexicanos a trouxeram para aquele país.
No Brasil, no final do primeiro quarto do século XX, segundo descrição de Pernambuco-Filho & Botelho, distinguiam-se duas classes de "vícios": os "vícios elegantes" que eram o da morfina, da heroína e da cocaína, consumidos pelas elites (branca, em sua maioria) e os
"deselegantes", destacando-se o alcoolismo e o maconhismo, próprios das camadas pobres, em geral, formadas por negros e seus descendentes. Segundo esses mesmos autores, não tardou para que o produto (a maconha) trazido da África viesse a "escravizar a raça opressora".
Estas afirmações mostram, além da origem da maconha no país que, já naquela época, ocorria a difusão do seu consumo por todas as classes sociais. Este é um fato incontestável diante da realidade nacional, entretanto permanece no imaginário social a associação "pobre - preto - maconheiro - marginal - bandido" traduzida nas ações policiais dirigidas às pessoas autuadas pelo porte de maconha, que na periferia das grandes cidades são muito mais severas do que nas áreas mais ricas e socioeconomicamente mais favorecida.

Filosofia

Filosofia, vivenciada em boa parte das Comunidades Terapêuticas.

" Estou aqui, porque finalmente não há mais, como me refugiar de mim mesmo.
Até que me confronte nos olhos e no coração de outros, estarei fugindo, até que sofra o partilhar dos meus segredos não me libertarei deles, estarei só.
Onde senão em meus companheiros poderei encontrar este espelho ?
Aqui, juntos, posso finalmente conhecer-me por inteiro, não como o gigante que sonho ser, nem tão pouco como o anão dos meus temores, mas como alguém parte de um todo compartilhando seus propósitos.
Neste solo poderei criar raízes e crescer, não mais isolado como na morte mas vivo, para mim e para os outros..."

A filosofia utilizada como norteadora dos residentes na sua busca da vida, em boa parte das Comunidades, é aquela que foi verbalizada pelo jornalista Richard Beauvais após ter passado uma temporada na Comunidade Terapêutica Daytop Village, nos Estados Unidos. 

Mais 24 Hrs de Paz e Serenidade