Dependência Química é hereditária ?

Dependência Química é hereditária ?

Dependência Química é hereditária ? - http://www.mais24hrs.blogspot.com.br
Pesquisando diversos assuntos, encontrei esta entrevista, no site da Abead (Associação Brasileira de Estudo do Álcool e outras Drogas). Muito interessante, e corrobora estudos recentes sobre a doença (DQ) e sua hereditariedade genética. Sabemos que é, uma doença crônica, progressiva, e fatal, se não tratada e ESTAGNADA. E com certeza, o uso da substância, sejam elas drogas ilegais, ou legais, é somente a "ponta do iceberg", desta doença. Ninguém, e este é o ponto, sabe se tem ou não predisposição para desenvolver a doença, que tem como uma das características principais, a tolerância às substâncias entorpecentes, ou álcool. É uma doença singular, que envolve o comportamento, a psiquê, o físico, e o espiritual. A descoberta de um meio, para que já na infância, pudesse ser detectada se existe esta predisposição, seria muito importante, e um avanço estratosférico na prevenção.

Segue a entrevista, na íntegra com os devidos créditos abaixo.


Entrevista com Petros Levounis (03/04/2008)

“Na maioria das vezes, a razão pela qual a droga se torna legal ou ilegal é histórica e cultural”
O psiquiatra grego Petros Levounis é um dos maiores especialistas em dependência química no mundo. Atualmente, vem estudando os vícios comportamentais. Na entrevista exclusiva para o Boletim da Abead, Levounis falou sobre diversos aspectos relacionados à dependência, como predisposição genética, adesão ao tratamento, legalização, abstinência, tratamento e percepção social do tema.

Existem pessoas que já nascem predispostas a se tornarem viciadas em certos tipos de drogas? Seria correto dizer que dependência química é hereditário?
Sim, atualmente nós realmente acreditamos, como nunca antes, que o fator genético realmente influencia na pessoa em se tornar dependente químico. Nós sabemos que com certeza existe um significativo componente genético para o alcoolismo. E, também, quase todas as evidências nos fazem ter certeza que a cocaína e a heroína também possuem predisposição genética. Atualmente, nós estamos descobrindo que até mesmo o vício patológico por jogos e as dependências comportamentais também possuem componente genético. Isso significa que se os seus pais sofrem de algum vício, por exemplo, o alcoolismo, você teria grandes chances de se tornar alcoólatra.
A analogia é muito similar à obesidade. Mesmo quando seus pais são obesos, não necessariamente você sofrerá de obesidade caso você siga uma dieta saudável e pratique exercícios.

Qual a diferença entre dependência química e comportamental?
Quando falamos sobre dependência química, geralmente pensamos em cocaína, álcool, maconha e nicotina, as drogas químicas. Já no caso da dependência comportamental, geralmente pensamos em jogos, sexo, internet, e talvez fazer compras compulsivamente. Tanto a dependência química quanto a comportamental possuem sistemas similares no cérebro, mas não são doenças iguais. Por exemplo, não é necessário tomar medicação quando se tem um vício compulsivo por jogos, mas nós estamos descobrindo que existem alguns medicamentos que ajudam estas pessoas.

Geralmente os usuários de droga não admitem que estão viciados. Como a família deve agir em uma situação como essa? Como saber se a pessoa está realmente viciada?
Uma das técnicas que nós usamos é chamada Normalização. Por exemplo, se o seu filho usa excessivamente maconha ou álcool e não admite que usa é uma boa idéia dizer que atualmente todos nós sabemos que alcoolismo é uma doença e que tem tratamento, assim como existe tratamento para a asma, diabetes, hipertensão e outros tipos de doenças. Ou seja, a pessoa que sofre de dependência por cocaína ou álcool percebe que existe esperança e tratamento disponível. O que eu estou querendo dizer é que você, como parte da família, pode fazer com que a pessoa saiba que você irá continuar a amá-lo e a cuidar dele. Mesmo que ele sofra com esse tipo de doença, você estará sempre ao lado dele para ajudá-lo.

Uma questão que é sempre levantada é que certos tipos de drogas são consideradas legais e outras não. Existe alguma razão científica para essa diferença? É mais difícil se viciar a cerveja do que a maconha?
Não, na maioria das vezes, a razão pela o qual a droga se torna legal ou ilegal é histórica e cultural. Em diversos países da Europa, a maconha é ou totalmente ou parcialmente legal. Como você sabe, nos Estados Unidos a maconha é ilegal. Em muitas partes do mundo álcool é considerado legal, mas nos países da Arábia o alcoolismo é ilegal. Ou seja, a questão está muito mais relacionada com a cultura e a história de um país. Não vamos esquecer que mesmo drogas consideradas legais, como o álcool ou o cigarro são ilegais para jovens nos EUA. Se você tem 18 anos e mora nos EUA, é legal ir para a guerra, mas é ilegal tomar um drinque.
Algumas drogas são mais fáceis de viciar do que outras. Acredito que a metanfetamina Cristal (crystal methamphetamine) é muito mais fácil de viciar do que, por exemplo, a maconha. O efeito que a Metanfetamina Cristal provoca no organismo é muito mais devastador do que a maconha.

Você acredita que a quantidade de dependentes químicos irá diminuir se todas as drogas forem legalizadas?
Absolutamente não. Eu acredito que a violência associada com a dependência química diminua se as drogas forem legalizadas, este é um argumento para essa afirmação. Eu não tenho certeza se é verdade ou não, mas existe uma visível discussão. Existe também um grande debate em que, se as drogas forem legalizadas, o número de dependentes irá subir.

Em uma entrevista para uma revista brasileira (Veja, 8/9/2004), você disse que um dos maiores problemas para o tratamento de dependentes é jeito como são tratados pela sociedade, porque, na maioria dos casos, eles ficam em clínicas de reabilitação. Você é contra a esse tipo de tratamento?
Acho que fui mal entendido, pois eu acredito sim que esse tratamento funciona e as pessoas devem, com certeza, continuar em tratamento. O que eu quis dizer é que o tratamento para dependentes químicos tem se modificado neste ano. Isto significa que o tratamento não é mais feito dentro de hospitais e clínicas de reabilitação, mas nas residências.

Após o paciente recuperar-se, é aconselhável não beber ou consumir ocasionalmente o tipo de bebida ou droga a que ele foi viciado anteriormente?
Existe uma controvérsia entre o modo de abstinência total e a administração moderada do tratamento. Muito tem se escrito sobre isto e muitas pessoas têm opinião muito forte com relação a um modo de tratamento ou a outro. O que a maioria das pessoas concorda, entretanto, é que a parte mais severa da dependência, o tratamento mais de abstinência é o que mais faz sentido. Para os casos menos severos de dependência, a moderação do tratamento é o mais sensato.

Em uma pesquisa do Laboratório de Neurociências da USP foi divulgado que após o tratamento da dependência, as recaídas são freqüentes: 50% nos seis primeiros meses e 90% no primeiro ano. A melhor forma para o dependente não engrossar essas estatísticas seria ficar longe dos bares e festas que contenham bebidas alcoólicas ou outro tipo de droga?
Infelizmente, mesmo sendo uma boa idéia, não é o suficiente. É certamente uma boa idéia ficar longe de bares e festas que tenham álcool e outras drogas, mas para as pessoas que sofrem severamente dessa doença, pessoas que perderam o controle sobre suas próprias vidas por causa das drogas, pessoas que perderam os seus empregos, que perderam as suas crianças, pessoas que têm suas vidas fisicamente deterioradas, para estas pessoas é necessário muito mais do que simplesmente ficar longe de festas que contenham álcool e drogas. Eles precisam de tratamento por um período muito mais longo do que lhes é fornecido.
Fonte-Abead

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